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Poemas & Poetas, Ode à Liberdade - Jaime Cortesão

 Ode à Liberdade

 

Quero-te, como quero ao ar e à luz

Porque não sou a ovelha do rebanho,

Nem vendi ao pastor a alma e a grei;

E onde não haja mais do que o redil,

És tua a minha pátria e a minha Lei.

 

Leva-me onde as estradas me pertençam.

Porque as vozes viris que me conduzem

Ninguém, melhor do que eu, sabe dizê-las;

Porque eu não temo as livres solidões,

Onde habitam os ventos e as estrelas.

 

Leva-me ao teu sopro, éter divino,

Porque me queima a sede das alturas

E o meu amor se oferece sem limite;

E és tu que abres as asas aos condores,

É tu que ergues os astros ao zénite.


Toma-se nas tuas mãos de Sagitário,

Faze de mim o arco retesado

Pelo teu braço e a tua força inquieta,

Pois, quando o meu desejo atinge o alvo,

És tu o impulso que dispara a seta.

 

É lá, sempre mais longe, além do Outono,

Nos limites do mundo conhecido,

Em plena selva e onde há que abrir a senda,

Que eu quero devorar os frutos novos

E erguer à beira de água a minha tenda

 

Torna-me ágil e ardente, alma do Fogo,

Porque tu és a inspiradora inquieta

Dos bailados da morte e da alegria;

E eu prefiro ao aprisco a vida heróica,

A que devora o ser, mas alumia.

 

Queima-me, embora custes, quando negas,

Quer o ódio fanático dos bonzos,

Quer o ciúme vil dos fariseus.

Sou dos que amam demais a Divindade

Para poder acreditar num deus

 

Não és a flor da beira do caminho.

Bem sei que é preciso conquistar-te

A cada novo dia e duro preço.

Por ti tenho sofrido quantos os homens

Podem sofrer. Por isso te mereço.

 

Por ti sofri os transes da agonia,

Desde a fome da alma no deserto

Ao pão que, por amargo, se recusa.

E, náufrago da grande tempestade,

Cá vou sobre a Jangada da Medusa!

 

Gerou-te, lentamente, com revolta

E dor, a consciência dos escravos;

Renasces mais perfeita a cada idade;

E, sempre, com as dores cruéis do parto,

Dá-te de novo à luz a Humanidade.

 

Querem mãos assassinas sufocar-te

Nas entranhas maternas. Mas em vão.

Virás como a torrente desprendida,

Porque és o sopro e a lei da Criação

E não há força que detenha a Vida.

 

Jaime Cortesão

 

Médico, Político, Intelectual e Historiador

1884-1960

Jaime Zuzarte Cortesão nasceu em Ançã a 29 de abril de 1884. Foi médico, político e deputado, militar, professor, pedagogo, historiador, etnógrafo, bibliotecário e documentalista, além de escritor, poeta e dramaturgo. Com uma vida intensa e multifacetada, distinguiu-se em todas as atividades em que se envolveu. Foi autor de vários livros, dirigiu a Biblioteca Nacional e esteve na origem da fundação das revistas Nova Silva, A Águia, Renascença e Seara Nova.

Eleito deputado pelo Porto para a Legislatura de 1915/1917, defendeu a participação de Portugal na Primeira Grande Guerra. Apesar de nessa altura não exercer medicina desde 1912, partiu como voluntário para a frente de batalha na Flandres, na qualidade de capitão médico miliciano. A sua atuação no teatro de operações valeu-lhe uma condecoração com a Cruz de Guerra. Depois da sua participação no movimento revolucionário 3 de fevereiro de 1927 contra a ditadura, foi obrigado a exilar-se, inicialmente em Espanha, Itália, Inglaterra e França, após o que se fixou no Brasil. Aí se distinguiu no ensino universitário como especialista em História dos Descobrimentos Portugueses, cuja obra homónima é uma referência da historiografia portuguesa, e em Formação Territorial do Brasil.

Em 1952, organizou a Exposição Histórica de São Paulo, para comemorar o quarto centenário da fundação desta cidade que, cinco anos mais tarde, viria a atribuir-lhe o título de Cidadão Benemérito. Regressado a Portugal em 1957, envolveu-se na campanha da candidatura de Humberto Delgado à Presidência da República e foi preso um ano depois, acabando por ser libertado na sequência de uma vigorosa campanha de protesto na imprensa brasileira. Faleceu a 14 de agosto de 1960, tendo sido agraciado, a título póstumo, com a Grande-Oficial da Ordem da Liberdade (1980) e com a Grã-Cruz da Ordem do Infante D. Henrique (1987).




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